Vou Te Encontrar Vestida de Cetim

Tempo atrás assisti um curta-metragem que achei fabuloso cujo título era baseado num famoso tango de Raul Seixas, transcrevo abaixo o roteiro do mesmo:

"Louco – Me deixa Dona Vera, me deixa, eu vou entrar.
Eu falei que vou entrar, me deixa senão eu atiro!!

Louco – “ Tá pensando o quê? Cê pensou que ia me curar?!
Curar todos os meus traumas, me deixar sem sonhos, sem fantasia?? Eu vou me
matar!!!”

Dr. Augusto – “Calma, calma… Não fique nervoso.”

Louco- “Mas, eu não tô nervoso!”

Louco- “Sabe, ontem eu sonhei que eu tava num cassino da
Urca lá na Rússia. E sabe o que eu tava fazendo lá? Jogando roleta russa. O
sonho é uma coisa maluca mesmo, né Doutor?!”

Dr. Augusto – “Sim.”

Louco- “Onde já se viu? Vê se tem algum cassino que preste
lá na Rússia… Mas como eu gosto de jogar, e o senhor outro dia falou prá mim
que também gostava, eu vim jogar roleta russa com o senhor, Doutor. Eu peguei
três balas, coloquei nesse revólver e vim pedir pro senhor participar dessa
última brincadeira comigo. Tem mais um prá brincar com a gente!”

Doutor Augusto – 
“Ôooo Dona Vera, a senhora pode se retirar, por favor. Está tudo sob
controle.”

Doutor Augusto – “Nós vamos participar do jogo, não é
Crenildo?”

Crenildo – Não!!

Louco- “Como não?! Esse é meu último pedido! Vai jogar, sim
senhor, senão eu te mato!”

Doutor Augusto – “Calma… Calma… Calma… É que o
Crenildo, ele tem um probleminha um pouquinho mais grave que o seu. É verdade.
Ele nunca diz sim quando concorda com alguma coisa. Ele sempre diz não. É verdade,
tá vendo? É o que sempre digo: todo mundo é um pouquinho pinel. Não é só
você… tem casos muito mais graves  que
o seu. Olha o caso do Crenildo, por exemplo. ”

Louco- “O senhor tá falando a verdade mesmo?”

Doutor Augusto – “Tô… tô sim. Não é verdade, Crenildo?”

Doutor Augusto –  “Tá
vendo… tá vendo como é verdade.”

Doutor Augusto – “Isso… isso… isso… Agora então
podemos dar início ao nosso jogo, tá bem? Olha, se você quiser, pode até nos
dar a honra de dar início à partida. Vamos lá, pode dar o primeiro tiro.”

Louco- “Eu até gostaria de ter essa honra mas eu não
posso… vocês atenderam o meu pedido. Então, eu vou ser democrático. Nós vamos
tirar no dois ou um.”

Doutor Augusto – “Não, não, não, não… pode começar, afinal
de contas você deu a idéia. Quem dá a idéia tem sempre o privilégio de ser o
primeiro.”

Louco- “Mas eu não quero privilégio nenhum. Eu sou apenas um
cidadão triste e solitário que se desiludiu…”

Doutor Augusto –  “…
com esse mundo tão violento, medíocre, inescrupuloso, tão  difícil de ser feliz… Ora meu amigo, pára
com essa história. Ninguém mais agüenta ouvir isso!!”

Louco – “Mas…”

Doutor Augusto  – “Ora
meu amigo, tudo tem limite, viu? Essa aqui, ó… Essa aqui é a septuagésima
segunda vez que meu caro cliente me conta a mesma história.”

Louco – “O senhor quer dizer septuagésima primeira e meia,
né? Nem cheguei no final.”

Doutor Augusto – “Mas ainda bem, né? Senão o pessoal que tá
assistindo a gente vai acabar dormindo, né? Vamos lá, se mata de uma vez que é
o que todo mundo tá esperando.”

Louco – “Tudo bem, mas antes…”

Doutor Augusto – “Mas antes…”

Louco – “Mas antes, vamos saber  quem atira primeiro no dois ou um.”

Doutor Augusto – “Tudo 
bem. Tudo bem. O que a gente não faz pelos pacientes.”

Louco- “Vamos lá.”

Todos – “DOIS OU UM!!!”

Louco – “ De novo, né?”

Todos – “DOIS OU UM!!!”

Todos – “DOIS OU UM!!!”

Doutor Augusto – “Ah, meu amigo, tá vendo! Esse negócio de
querer ser democrático, de dois ou um… isso não leva a nada!! Eu não tenho a
tarde toda prá ficar esperando o senhor se matar, não… tenha paciência…”

Louco- “Não, não. Pode voltar! Pode voltar… pode voltar!!
Nem que a gente tenha que ficar o resto das nossas vidas aqui jogando: DOIS OU
UM! DOIS OU UM! DOIS OU UM! Um dia vai dar certo. Ah! Eu sei o quê o
senhor  tá preocupado… viu seu… seu
porco capitalista!!!”

Doutor Augusto – “Seu o quê!?!?!? Seu o quê!?!?  Repete!!”

Louco- “Seu Neo-liberalista!!!”

Doutor Augusto – “Neo-liberalista?? É! Menos mal.” 

Louco- “O senhor só tá pensando na grana que tá deixando de
ganhar essa tarde, né?!”

Doutor Augusto – “Ah, e se for isso? O que é que tem? Ahnn??
Eu sou um profissional, meu amigo. Se o senhor se mata, de quem que eu vou
cobrar os meus honorários? Se nem parente o senhor tem?”

Louco- “Eu não acredito que o senhor tá falando isso.”

Doutor Augusto – “Ahhh, não acredita??? Nós estamos no final
do século XX, sabia? Sabia??”

Louco- “Mas eu fiz um testamento deixando tudo pro senhor.”

Doutor Augusto – “O seu tudo, meu amigo,  não me interessa, tá? Fora!”

Louco – “Mas…”

Doutor Augusto – “Quer se matar, é lá fora. Não me atrapalha
mais, vai…”

Louco – “Mas…”

Louco – “Vocês tão me deixando louco. Feche a porta! Feche a
porta!! Se o senhor não quiser jogar e se você não jogar, eu mato todo mundo e
me mato!! Eu trouxe mais balas. Eu não trouxe só três balas. Eu tenho um monte
de bala. Eu tenho bala… eu tenho bala… Quem quer bala? Eu tenho bala…

Doutor Augusto – “Calma.”

Louco – “Vai ou não vai?”

Doutor Augusto – “Vou porque é pro senhor. Eu vou por você,
viu querido?”

Doutor Augusto – “Vem cá, vem.

Louco – “Dois ou um… dois ou um.”

Doutor Augusto – “Dois ou um, tudo bem. Tudo bem…”

Crenildo – “Dois ou um…”

Todos – “DOIS OU UM!!!”

Doutor Augusto – “Ah! Meus parabéns, você é o primeiro.”

Louco- “Tá certo. Agora vocês vão tirar par ou ímpar prá
saber quem é o segundo.”

Crenildo – “Hei, hei… Qual que é a desse cara, hein? É par
ou ímpar, é dois ou um… Ele tá tirando a infância do mofo da memória, pô?”

Doutor Augusto – “Não discuta. Faça o que ele manda.”

Crenildo – “Oi!”

Doutor Augusto – “Par.”

Crenildo – “Ímpar”

Crenildo – “Ganhei”

Doutor Augusto – “Tudo bem. Eu sou o segundo então.”

Louco- “Bom, então chegou a minha hora. Muito obrigado por
tudo que o senhor fez por mim, viu?”

Louco- “Adeus. Adeus.”

Doutor Augusto – “Hum! Huumm!! Não vai rodar o tambor não,
é?”

Louco- “Não. Na minha roleta russa não se roda o tambor.”

Doutor Augusto – “Não mesmo?”

Louco- “Não.”

Louco- “Eu sabia que não ia dar certo. Alguma coisa me
falava prá eu não ser o primeiro.”

Doutor Augusto – “Calma, meu rapaz. Dê graças a deus que
você ainda tá vivo.”

Louco- “Doutor, o senhor sabe muito bem que eu sou ateu.”Doutor Augusto – “Bom, então dê graças ao que você quiser.
Mas não vai ficar chorando aí  porque não
morreu, tá bom?”

Louco- “Doutor, eu queria tanto morrer, doutor.”

Doutor Augusto – “Calma. Calma. Calma. Não faltarão
oportunidades, tá? Daqui a pouco o nenezinho morre, tá?

Louco- “Tá bom.”

Doutor Augusto – “Agora, vamos parar um pouco com isso que a
hora tá passando, tá? Me dá logo esse negócio aí.”

Doutor Augusto – “Prontinho, quem é o próximo?”

Crenildo – “Sou eu.”

Doutor Augusto – “Vamos lá, Crenildo. Coragem rapaz.
Isso…”

Doutor Augusto – “Puta que pariu, rapaz!!! Você é louco!

Louco- “Eu não!! Ele que se suicidou.”

Doutor Augusto – “Mas tinha bala de verdade nesse
revólver!!”

Louco- “E o que é que o senhor queria? Alguém tinha que
morrer. Eu tenho culpa se ele se suicidou no meu lugar?”

Doutor Augusto – “Nossa!! Mas que rombo, rapaz! Olha só que
puta rombo!!!”

Louco- “É… é mpressionante.

Doutor Augusto – “Mas que morte horrível, meu deus! Agora,
vão ter que enterrar  o coitado num caixão
lacrado. Ninguém vai poder olhar prá cara do infeliz. Coitado, era tão
bonzinho… pagava sempre em dia…”

Doutor Augusto – “Bom, vamos chamar a polícia e se livrar do
corpo logo.”

Louco- “Polícia?!”

Doutor Augusto – “O que é que tem?”

Louco- “Eles não vão acreditar que eu queria me suicidar e
não ele… e vão me culpar!”

Doutor Augusto – “E daí?! O que é que tem?”

Louco- “Eles vão me prender!!”

Doutor Augusto – “E daí?!”

Louco- “Eu não quero morrer na prisão, Doutor.”

Doutor Augusto – “Mas quem disse que você vai morrer na
prisão? Quem disse, ahnn?? Você vai ter comida de graça, vai ter um teto prá
morar, vai poder tomar banho de sol de vez em quando, ahnnn? E o melhor, o
principal, você vai poder refletir sobre a vida.”

Louco- “Não! Refletir sobre a vida, não!”

Doutor Augusto – “Mas você tem que dar graças a deus da
história está terminando bem, rapaz. O Crenildo se suicida. Você vai preso e
não reflete sobre a vida. E eu continuo as minhas funções de psicanalista
ileso.”

Louco- “Imagina… eu… passando o resto da minha vida
preso. Não, eu não gostei desse fim.”

Doutor Augusto – “Mas você não tem que gostar, nem deixar de
gostar.”

Louco- “Mas se eu não gosto, eu não vou gostar e pronto.”

Doutor Augusto – “Mas talvez aí esteja a chave do seu
problema, você não aceita a realidade dos fatos.”

Louco- “Éééé!! E é por isso que eu não agüento mais esse
mundo!”

Doutor Augusto – “Calma, rapaz. Calma. Não é por aí também,
calma aí.”

Louco- “Como não??”

Louco- “Doutor, ou o mundo muda de vida ou eu me mato!”

Doutor Augusto – “Ai… que anta, meu deus… Mas eu é que
decido isso?”

Louco- “Não, eu não sou tão louco assim.”

Doutor Augusto – “Tá certo que o mundo não tá essa maravilha
toda, mas também não vamos sair por aí, por aí se matando…

Doutor Augusto 
“Ah!! Meu deus! Oh, não! Dona Vera! Dona Vera! Faz favor, dona Vera, me chama a
polícia, faz favor.”

Doutor Augusto – 
“Mulheres… humpff!!”

Médico – “Morreu. Morreu do coração.”

Doutor Augusto – “Do coração, é? Pô!”

Funcionário do IML- “Ôooo Canelinha, me ajuda logo com esse
aqui também.”

Canelinha – “Tô indo, porra!!”

Investigador 
“Doutor, conta aí como é que rolou essa história, hein?”

Doutor Augusto – “Cê quer saber desde o começo?”

Investigador- “Do começo. Tintim por tintim.”Doutor Augusto – “Bom, começa assim a tela toda branca, né,
escrita em vermelho assim: CDI apresenta…

Investigador – “CDI?”

Doutor Augusto – “CDI apresenta VOU TE ENCONTRAR VESTIDA DE
CETIM, né? Aí, aparece o nome do diretor: Pedro Alves, também em vermelho. O
nome do elenco… o nome assim do… aí você vê que aquilo é uma porta
branca… uma porta branca… aí, o que acontece? Ah! Ela é invadida, de
repente estouram a porta, né? Investigador- “E o final, doutor?”

Doutor Augusto – “ Ah!! O final eu não vou contar. O senhor
que vá assistir essa porra lá no cinema e pronto.”
Diretor – “Corta!”"

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