A Saga de Tobias Jack (The Blues Experience) 04

Olavo Campos
O Bastardo

“Ferrugem necessária, não basta ser acerado.
Senão sempre dirão de ti: – É muito novo!

Herói único de seus
desejos, aprendeu desde muito cedo a não necessitar de muito. Às vezes
necessitava de nada!
Não necessitava de
carinho. E não o teria.
Não necessitava de
privacidade. E não teria.
Não necessitava de
família. E nunca teria.
Não necessitava de
amigos. E não os queria.

Necessitava sim de
reconhecimento. Não imediato. Póstumo se assim o fosse, mas o queria mais que
tudo. Seu olhar milenarista não queria o imediatismo do aplauso, mas o
agradecimento apologético de ser inspiração um dia.

Em sua verdade
tropical, não dispunha de muita confiança no Brasil. Queria um mundo diferente
do seu mundo. Queria algo desconhecido em sua vida. Queria algo do qual
sentisse algum orgulho de designar “mundo”. E andava sem alternativa ou opção.

Caminhava como que
buscando um sentido para caminhar mais, ouvindo música dentro de sua cabeça.
Compunha sua trilha sonora inconsciente a cada passo, a cada visão, a cada
devaneio.

Sentia-se um
personagem de um conto sem muito sentido, de uma tragédia mal encenada por
protagonistas desatentos à realidade. Sentia-se uma criatura arrebanhada pela
falta de conhecimento. E criatura trágica que era, um dia encontrou outro
personagem em uma história comum à sua. Neste dia, ouviu a voz rouca de uma
gaita genialmente tocada por um velho cego, sentado numa esquina suja, com uma
lata e algumas poucas moedas de companhia. Parou e ouviu sem ver o tempo passar
nem notar que o velho cego sabia de sua presença. Quando o som cessou, o músico
lhe chamou de filho, entregando-lhe a gaita, e, sem dizer mais nada,
levantou-se e saiu.

Tobias não disse
nada e sabia que nunca mais veria o velho cego. Apenas encarou a gaita e
sorriu, imaginando que depois da morte, Deus poderia conceder àqueles que
deixaram vidas abandonadas, uma segunda passagem pela terra no corpo de um
deficiente visual. Sabia que este pensamento não fazia sentido, mas queria
acreditar na palavra “filho” que tão docemente ouvira dos lábios de um
desconhecido. A gaita foi a herança que mudaria a sua vida e seu mundo. Sua
história subterrânea emergiria das trevas e tomaria seu lugar frente aos
holofotes.

Fechou os olhos e
viu a manga chupando um cão. Descobriu que todas as frases que norteavam sua
vida poderiam ter suas palavras embaralhadas até encontrarem um sentido (ou a
falta dele) mais ameno.

A partir daí sua
poética apocalíptica ficara bem diferente. Provando o vinagre e o vinho seu
desenvolvimento seria mais intenso, pois, como disse Raul, o homem é o
exercício que faz.

E esta era sua
real herança.

Aprenderia
a tocar a sua gaita e o resto agora é Blues e Rock n’Roll.

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