A Saga de Tobias Jack (The Blues Experience) 05

Olavo Campos
Violência e Arte

 

São 9:40 da manhã, os raios do sol, que
entram pelos buracos deixados entre as folhas de papel-pardo que cobrem os
vidros da janela, lhe queimam os olhos.

         
Caralho! – Diz Tobias, sonolento.

Isto
lhe proporciona um despertar extremamente relaxante. Mas o vidro do basculante
quebrado serve de testemunha ao fato de que a janela recebeu o que merecia.
Quem se deu mal foi o pobre do Kafka… Seu castelo foi enterrar as bases no
chão da garagem. Mas já foi devidamente devolvido à sua imponente posição no
alto da mesa de cabeceira. Acho que todo pseudo-intelectual tem um livro
famoso, velho, desses que ninguém lê, exposto num canto qualquer que, diga-se
de passagem, é bem visível.

Ele
pensa enquanto esfrega os olhos… E os esfrega como se eles fossem lâmpadas
maravilhosas, os desejos realizados eram as idéias que lhe vinham aos
borbotões: Vou escrever um livro sobre a minha vida…

E
escreve:

 22/09/2003–
Cheguei à conclusão de que não tenho nada para escrever sobre a minha vida.

E
assim,  compôs seu obituário.

 
Pensou no que queria comer no almoço e foi até o
supermercado… Reparou no opala amassado perto do estacionamento. Ele já está
lá há muito tempo. O carro, não o estacionamento; apesar de que quando o carro
chegou o estacionamento já deveria estar lá, mas isso não vem ao caso. Ele (o
Tobias, não o carro) sempre pensava no que teria acontecido com o carro… Será
que atropelou alguém? Se foi deve ter sido bem… Sujo.  Num susto, desperta de suas divagações e
vira-se:

         
Qualé manézão! Perdeu a cartêra e o
celular!!!

         
Eu não tenho celular, moçada…

         
Moçada não! Rapaziada! Ce ta folgando
cumigo, lorim!?

Tobias disparou numa carreira desenfreada e
completamente torta, porém a mais ágil que lhe permitiu o corpo tão habituado à
ociosidade. Olhou para trás por alguns instantes. Instantes estes que se
mostraram suficientes para torcer-lhe o pé e faze-lo estatelar-se (o pé e o
Tobias) num chão poeirento que agora fazia lama em seus cotovelos ralados.

         
E aê prêibói, agora cê se fedeu! Que jaca
héin, mané!

Faça-se saber que os pobres marginais, vítimas de
um sistema desigual, foram até educados… Não bateram tanto assim no paupérrimo
Tobias, vítima das vítimas de um sistema desigual… E muito repetitivo!

Lá sei foi a carteira e os documentos, correndo por
uma rua lotada, que mais aparentava ser deserta pois nada mudou… As expressões,
os movimentos, todos seguiam suas vidas como se nada tivesse acontecido,
preocupando-se apenas em dar passagem aos criminosos num abre alas pela salvação
de seu próprios e preciosos bens particulares. A fúria lhe possuiu naquele
instante de abandono por aqueles que nunca conheceu. Pensou se agiria da mesma
forma e, em uma lucidez desesperada concluiu que sim. Seria frio da mesma forma.

Ainda sentado procurou limpar suas vestes e
percebeu que sua gaita ainda estava lá, seu maior bem fora preservado. Começou
então a tocar tão intensamente e tão inconscientemente que tudo deixou de
importar. A voz rouca de seu instrumento ecoou na rua vazia em que as pessoas
circulavam. Encheu ouvidos, espaços e espíritos com uma melodia triste e
intensa, chorosa até.

Compôs assim sua primeira música: Rua lotada de vazio

Anúncios
Esse post foi publicado em Livros. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s