Blues

E o som metálico de uma gaita perfura a névoa da noite, música plena de uma orquestra solitária, ouvida por aqueles que pela noite demonstram admiração, que lhe prestam adoração, em passos cambaleantes de uma lúdica dança ébria.

Calam-se os sapatos numa esquina suja por seres maltrapilhos, desconsiderados, semi-humanos. E sob o holofote que se eleva além dos fios de alta tensão, a gaita grita notas de dor e de desencanto, num palco improvisado nos limites da calçada.

Tem a melodia o seu início, a cerimônia vai começar. Uma ópera urbana que tem por personagem a desavença e barbitúricos por inspiração. Com devaneios compõe um dia-a-dia decrépito, economiza o sangue que lhe corrói as veias e o converte no fôlego que lhe abandona o peito, buscando morada nos ouvidos incautos, curiosos, despreparados para o som metálico e dolorido que a semi-inconsciencia insiste em produzir.

A guitarra sopra seus ruídos mais melindrosos, suas cordas dançam a freqüência da noite e seduzem ouvidos exigentes mas fugidios. Como uma mulher, encanta os lábios e a garganta que evocam hinos a baco e eros. A virtú maquiavélica se mostra em plenitude nas caixas, com seus ruídos frescos, maldosos e elétricos.

Olavo Campos Pereira

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