A Culpa não é de São Pedro!

Por Edson Teixeira

Como admirador e turista extra-oficial da Ilha Grande e Angra dos Reis, não posso deixar de remeter algumas reflexões sobre a falácia que estamos assistindo na porca mídia brasileira. O que lá ocorreu é uma tragédia anunciada. Vejamos três motivos:

Primeiro, não há política de turismo para essa região, com exceção dos tradicionais salões de festas da burguesia brasileira. Esta possui partes inteiras da ilha para ancorar suas lanchas e iates, desfrutando da mais-valia absoluta que extraem dos trabalhadores que subcontratam em suas pastagens empresariais.

Segundo, a população nativa, na Ilha, vive a deus dará. Não há apoio municipal condizente. Os serviços são precários e não incentivam a democratização do espaço "natural". A completa destruição do presídio da praia de Dois Rios é o retrato do descaso do Governo do Estado com o local. Aquilo poderia ser um centro de memória, mas lembrar o que incomoda não interessa à classe dominante.

 Terceiro, o que ocorre em Angra dos Reis é fruto do que ocorre em todo o mundo capitalista. Quem mora na cidade, além das tradicionais "elitinhas" de merda, são os subproletários do Sul fluminense, ou regiões mais distantes, atraídos pelo falso eldorado das empresas que lá se instalaram. – além da possibilidade de algum ganho com o movimento de turistas. Tudo numa precarização humana e social que é visível e correlata à ocupação do espaço urbano.

 

 

Angra, com exceção dos condomínios de luxo, não passa de uma favela gigante regida pela especulação imobiliária. Isso não implica acatar, passivamente, os preconceitos comuns quando se fala em favela. Mas, a favelização é um processo mundial, que se alia à precarização das relações sociais trazidas com as políticas neoliberais.

Diante desse pequeno retrato, qual é a espetacularização midiática mais deslavada?

Romantizar o episódio como "tragédia natural", quando de "natural" não há nada na formação social dos povos. Tudo é intencional; tudo é construção humana. Seja pela ação ou omissão do poder público, seja pela sua  eficácia  ou ineficácia.

Não por acaso somos bombardeados diuturnamente pelos dramas familiares. Em cada lágrima, em cada caixão, não vai uma vida. Vai a vida e o projeto de sociedade de toda uma nação. Daqui a pouco vão querer implantar algo semelhante à firula política de unidade pacificadora na Ilha e em Angra. Ou, talvez, num culto ecumênico fantoche, rezar para que santos e deuses cessem a catástrofe.

 Angra é a denúncia do que vem por aí. Ou melhor, do que já é uma realidade perversa. Ocultar essa perversidade é que é uma tragédia – ou uma farsa.

Edson Teixeira é historiador – doutor em História da Universidade Federal Fluminense, professor universitário, pesquisador e escritor.

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