O Despertar de um Pesadelo Filosófico

Essa noite tive um pesadelo que, posso considerar, como sendo como um dos piores de minha vida. Não pelos fatos em si, mas pela postura que tive frente aos acontecimentos.

1 Estava eu, no que até então era um sonho, me encontrando com amigos que não vejo há anos para uma agradável noite de música e esbórnia… mas não lembro bem o que aconteceu, precisei ir até a minha casa, passando no caminho em meio a uma multidão.

Eu carregava uma mochila, como quase sempre, e foi quando tive uma surpresa que mudou os rumos da história. Ao sair da multidão senti um volume diferente em minha mochila e quando fui averiguar, havia um pequeno saco plásico dependurado em uma de suas alças. peguei aquele embrulho e olhei o seu conteúdo.

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Qual não foi o meu espanto quando descobri que o embrulho continha um pequenino… não, minúsculo, bebê, prematuro e negro, muito parecido com o da fotografia. Me desesperei imediatamente. o que eu poderia fazer com um bebê… meu primeiro impulso me decepcionou absurdamente, coloquei o bebê de volta na sacola e o abandonei em uma jardineira próxima, pensando em seguir o meu caminho antes que alguém percebesse o que eu tinha feito.

Tentei me afastar mas a consciência me martelava, gostasse eu ou não, o bebê já era minha responsabilidade. Tentei ligar para a polícia mas o telefone não atendia, liguei então para a Assistência Social Judicial, mas a profissional me disse que não poderia fazer nada. Desligou o telefone e não atendeu novamente minhas chamadas.

Me senti tão abandonado quanto aquela pequena e indefesa criança… o que eu faço agora? Tudo o que tinha em mente era uma noite de diversão com amigos que não encontrava há tempos.

Pensava em atitudes nobres, mas não conseguia tomar nenhuma delas… peguei um carro e coloquei o pequenino no porta-malas! Absurdo, eu sei, mas envergonhado admito que esta foi a minha reação. Deixei ali aquela criança desamparada, sem forças até para chorar, enquanto procurava uma solução ou alguém que me ajudasse. Comei a dirigir freneticamente mas não encontrava uma autoridade, um conhecido… nada!

Após muitos quarteirões, finalmente encontrei uma viatura policial e parei. Chamei os políciais e abri o porta-malas do veículo. Neste momento comecei a chorar com o que encontrei. O Bebê jazia em seu interior, contorcido e morto, tudo culpa de minhas atitudes e pela minha falta de cuidados. Minha consciência então me fuzilou: como pude colocar um pequeno bebê dentro de um porta malas? como pude, em meu desespero, pensar em abandoná-lo?

Lembro que neste momento os policiais começaram a me cobrar explicações e lembro que seria preso pelo acontecido. Mas acordei em seguida e isso já não vem ao caso.

bebe_prematuro Acordei sentindo-me mal como não me lembrava de assim ter me sentido com tamanha intensidade, e comecei a me questionar quanto ao meu comportamento. Teria eu agido diferente se aquilo não fosse um sonho? bom… quanto ao porta-malas, certamente que sim, mas o desejo inicial de abandonar a criança, e tentar me convencer que aquilo não era minha resposabilidade? Quanto a isso, sinceramente, não sei dizer.

Passei algumas horas me questionando quanto ao meu pensamento real… não aquele  mascarado pela necessidade de adequação aos costumes sociais, mas o pensamento primal, instintivo, muito mais ligado ao caráter que a qualquer concepção adquirida a posteriori.

Tenho desde que acordei pensamentos em relação ao racismo (teria eu colocado o bebê com tamanho descaso e descuido dentro de um porta-malas, se fosse ele branco, e não negro?), caridade (seria eu capaz de assumir tamanha responsabilidade e cuidar de um bebê que não é meu?), dignidade e respeito pela pessoa humana e tantas outras questões que analisamos constantemente no próximo mas dificilmente questionamo-nos quanto a nós mesmos.

Percebi, melhor do que nunca, o quanto é fácil julgar alguém e tentar nunca enxergar a maldade em nós mesmos. Me decepcionei com o meu monstro particular, o qual espero caçar incansavelmente e eliminá-lo por completo, na busca por ser alguém melhor.

Me olhei neste sonho, em um espelho muito claro, e não me orgulho do que vi.

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